terça-feira, 11 de dezembro de 2007

3 efes


3 Efes - Um filme de Carlos Gerbase

Fui conferir no último sábado a sessão comentada do filme "3 Efes", de Carlos Gerbase, lá no cine Santander. Os motivos são vários - além do único dia que tenho oficialmente uma folga no horário noturno, o cine Santander é sempre convidativo, pelo ambiente diferente - para os não gaúchos, a sala aproveitou a estrutura do antigo prédio, que sediava o banco, e foi construída aproveitando o cofre que existe no subsolo. Apesar da sala ser um tanto quanto simples - longe de qualquer estrutura de sala de shopping onde tu podes te acomodar em cadeiras confortáveis, com estrutura de palanque (não riam, para alguém pequena como eu, isso faz a diferença), temos vantagens como o baixo custo do ingresso, o que me levou a pagar três reais pela sessão do filme, ainda por cima comentada pelo diretor. O Gerbase é figurinha tradicional de porto alegre, pelo seu envolvimento com o cenário cultural da cidade. Ele é um dos fundadores da produtora Casa de Cinema, uma das pioneiras aqui no Rio Grande do Sul. No seu currículo, além dos filmes Verdes Anos (1984), Tolerância (2000) e Sal de Prata (2005), temos uma passagem pela banda Os replicantes, destaque no cenário underground gaúcho dos anos 80. Agora, Gerbase se dedica à produtora, ao cinema e é professor da PUCRS. Antenado com a cultura contemporânea, Gerbase inova no lançamento do filme em três mídias: o cinema (filmado em digital), simultanemante em DVD e também na internet - com a exibição ancorada pelo patrocinador, o portal Terra.



Gosto dos trabalhos do Gerbase, apesar de não simpatizar muito com Tolerância, gostei bastante de Sal de Prata, onde entrevistei o diretor para o site onde eu colaborava. A idéia dos 3 Efes surgiu através de um professor da faculdade de psicologia da PUC, o Valadares. Segundo ele, o ser humando possui três necessidades básicas: A Fome, O Fasma e o Sexo (ou a Foda, melhor dizendo).Quando li a sinopse de 3 Efes, achei que encontraria um filme um tanto quanto denso, talvez pesado, pelas questões abordadas. Mas essa expectativa não se cumpriu: 3 Efes é um filme que aborda temas delicados, mas com bastante humor. Contrapondo tensões, sobrevêm os risos e a simpatia com o filme é invevitável.

A protagonista do filme é Sissi (Cris Kessler), universitária, que assiste a sua família passar por grandes dificudades financeiras, e não consegue ajudar com seu salário de atendente de telemarketing. Com a sugestão de sua amiga Giane (Ana Maria Manieri), acaba decidindo virar garota de programa. Paralelo ao drama de Sissi, vários outros personagens acabam tendo situações de impasse em suas vidas: a tia, ex-garota de programa, mal-casada, o que a leva a manter um caso com um papeleiro; o publicitário casado com ela, que enfrenta uma crise no trabalho e termina por ser manipulado, o fotógrafo que se apaixona pela protagonista e é desprezado, o taxista-cafetão que faz mea-culpa para garantir o seu dinheiro, o irmão de Sissi que compara a história dos três porquinhos à fome que passa em casa. Ok, a essa altura do campeonato está mais parecendo uma novela das oito, não é mesmo?


Mas grandes histórias são contadas, muitas vezes, através de argumentos clichês, que permeiam o imaginário do público, sim. E é interessante observar como Gerbase conduz sua história, que elementos ele usa para mostrar seus personagens - muitas vezes, em suas escolhas, tendo sim, que estereotipar alguns, para que a história tenha ritmo e possa funcionar - mas muitas vezes, mostrando nuances do persoanagem que nos surpreendem. Cris Kessler está muito bem no papel de Sissi, fazendo a personagem de forma adorável e sonhadora - a universitária que sonha em se casar com seu namorado após concluir a faculdade, que imagina que a opção por virar prostituta é algo apenas "temporário". A personagem tem seus sonhos, e é confrontada com uma realidade que nem ela mesma se imagina viver. Como falou Gerbase na sessão comentada, o grande erro de Sissi foi não se imaginar como uma prostituta, o que causou o pavor e o choque de realidade que vemos a personagem vivenciar. Cris Kessler está muito bem no papel, o que reforça, conforme o diretor mesmo disse, que 3 Efes é um filme focado na atuação, e não na técnica - consequencia do orçamento de 30 mil reais previsto para sua execução.

Ana Maria Manieri, apesar de ser uma excelente atriz, está um tanto quando limitada ao vivenciar a personagem Giane, talvez pelas poucas possibilidades que a personagem oferece. Carla Cassapo, que vive Martina, a tia de Sissi, transita bem entre as nuances da personagem - a recatada dona-de-casa mal-casada, ex-prostituta, que vê em seu romance com um papeleiro uma grande transgressão. Os mais chatos podem questionar : mas que verossimilhança pode haver em um romance entre uma burguesa e um papeleiro? Mas a situação posta em xeque aqui é a de transgressão e a de contraste social. Uma das falas mais interessantes da personagem é um comentário sobre o amante, que "apesar de ser papeleiro, tem um cheiro bom". A crítica social é escancarada, beirando o pastiche, mas a curiosidade em observar o que realmente poderia acontecer em uma situação absurda como essa ainda é maior. Outros absurdos, como o fotógrafo picareta que vai fotografar a recém-prostituta Sissi e que acaba se apaixonando são usados para descontrair e muitas vezes brincar com a extrema seriade que os temas abordados aparecem. Na minha opinião, são grandes enriquecedores do filme.

Como ponto negativo, confesso que não fiquei satisfeita com o conceito de "fasma". É um ponto tenso no roteiro, explicitado no início do filme, quando Gerbase, em tom enciclopédico, buscando referencias em Jorge Furtado (Ilha das Flores) tenta resolver. Sinceramente, não fiquei satisfeita: acho que a amplitude do conceito acaba tornando tudo "um samba do crioulo doido", onde o fasma pode representar qualquer coisa. Fasma, conceituado no próprio filme, é a capacidade de se imaginar em outra situação, ou meramente, representação. Segundo Gerbase, o filme todo questiona o conceito de fasma - muito explicitado no drama de Sissi, que não consegue se ver como prostituta. Para fechar o filme, os três Efes são representados na cena de sexo entre Martina e Wiliam (Paulo Rodrigues), a mais divertida do filme, sem dúvida.
Ponto para os cenários porto-alegrensenses e a luz da cidade. Ponto para as grandes sacadas e diálogos impagáveis (que as vezes esbarram em bairrismos, mas que não tiram mais uma vez o mérito do filme), além das excelentes atuações dos atores. 3 Efes te faz sair com um sorrisão do cinema, e, sinceramente, vale sim o ingresso, a olhada na internet, a espiadinha no DVD. Não dá pra passar batido.

site oficial do filme

Um comentário:

Mestre disse...

vou ver o filme, estava precisando desse empurrãozinho...